sábado, setembro 14, 2013

Sobre amar

Só consigo amar bêbado.
O amor, por si só, é um tormento
Como poderia suportá-lo sóbrio?
Quem diz ter força para tal, está mentindo!
Ou não ama. Simples.

Quem ama, sente sede, a garganta seca
pedindo por mais um gole que o inebrie
que o encha da lascívia necessária
do pouco de morte que se carrega quando ama
essa sofreguidão que não te deixa respirar

Sufoca e traz em si, morte e vida.
Dor e gozo. Vontade de casa e boemia.
Como pode alguém cogitar ficar sóbrio ante tamanho fardo?
Essa agonia que queima sem parar de dentro pra fora
fazendo o sangue ebulir em formas eróticas

Que entre lençóis se faz em gemidos cálidos
de suplicantes dessa dor que perpassa o corpo e alma
dementes, perdidos, sem querer rumo algum
deixados ao vento da sorte que os leve ao inferno se assim for
para a sublimação dos corpos em êxtase profano

O sacramento sombrio do pacto feito entre dois entes
que se entrelaçam em profusões serpentinas
odiando e adorando, deuses deles mesmos
sem nada que quebre sua fé

Como amar sóbrio se amar é estar bêbado.

Cidadão de Bem

todos os meus amigos de infância
tornaram-se homens de bem
só eu ainda ando pelas ruas como um ébrio
vagando sozinho e pelos becos
trocando ideias com a corja
como os rejeitados que são
não têm família que os acolha
nem braços carinhosos que os afaguem
somente o álcool, a luxúria e a boemia
em longas noites frias

tentar todos os dias ser a mesma coisa insossa
cantar a mesma ladainha todos os dias ao chefe
viver a mesma vida triste por escolha
todo santo dia!
como conseguiria?

como eu queria ter feito um filho
arranjado um trabalho de segunda à sexta
bater cartão, ser sóbrio, ir à igreja
beijar à esposa como um hábito sem importância
quem sabe, ter um carro, enfrentar congestionamento
ter uma gastrite, contas à pagar

quem sabe, ter a filha rainha do baile,
o filho capitão de futebol
a esposa missionária
e eu, ali, vazio de sentido.
cumprindo o mesmo roteiro que os meus amigos escolheram.

sério! eu até me esforcei bastante pra isso
mas não consegui. rezei um terço e me confessei
de nada adiantou, continuei torto.

logo eu dado à exageros
o perdido, o pecador, o lascivo
o desvirtuado, derrotado, perdedor
fracassado, egoísta e blasfemo
de mal com Deus e o Mundo.
admirador de lascivas mulheres
algumas até prostitutas
doente, pervertido e subversivo
como eu, dono de tantas distintas qualidades
poderia ser um cidadão de bem?

como se eu quisesse.

terça-feira, agosto 13, 2013

O poeta e a escrita

A vida toda
Para escrever um poema
Sem poesia alguma
Que faça qualquer sentido
De qualquer maneira, para algum Mané.

Garranchos escritos ou jogados
Para ocupar o tempo na era dos occupy
Invencionando termos
Soltos no papel branco
A folha em branco e a quimera do poeta
Perseguida em flores, deflores, amor e desamores
Defloradas as opções, segue
rabiscando referências perdidas
Esquecidas, subjugadas, preteridas
Em razão de uma vida fluida
Corrida, morrida de morte virtual
Matriz de um protótipo de poeta

Que ainda pensa que sabe poetar.

Repetições cíclicas de uma mente redundante

Como é que se cura a angústia
Do medo do vazio do dia-a-dia
Dado o que é dado todos os dias noticiado

Como é que se cura a ferida
Que não aberta, não pode ser fechada
Que não conhece inicio, menos ainda fim

Como é que se luta
Todo dia na labuta, sob o chicote
Etéreo, do patrão sem face ausente

Como é que sei de algo
Quando algo não é sabido se quer
Sequer ser sabido por ação ou inação

Como é que falo de ação
Quando ação de um cão feroz
Silencia a voz de seus cidadãos

Assim é que sei que a angústia
Do medo vazio do dia-a-noite
Que abre a ferida fantasma
Que dói no lombo que luta na labuta
Que não se sabe se enquanto saber
Se sabe-se dever ou luta
Que apavora a alma do que ama
Fenda do vazio sob o chicote dos amos sem face
Angustiados no mosaico de paixões
Que insistem chamar ação.

Assim é que sei.
Talvez.

quarta-feira, agosto 07, 2013

Gehenna

Gehenna

Como sublimar as tristezas de um mundo decaído
deteriorando em caos e miséria
Abandonado por qualquer entidade possível

Como transcender em meio à fome e a guerra
decaindo em desgraça, profanando à tudo como resistência
Iconoclastia obsessiva diária e constante

Queimando os ídolos que nos acorrentam
Crucificando pastores de ovelhas cegas
Sofrendo em silêncio o luto da própria alma

Observando de becos escuros, que ninguém frequenta
longe dos olhos virgens dos senhores
A fealdade da realidade ignorada encarnada

Um vira-latas entre seus iguais, tantos
caçando os pedigrees, tão poucos
uma massa que ainda dormente, atormenta

Uma torrente de cães acorrentada
surrados diariamente, esgotados de esperança
Comendo os restos, alguns, outros, velhos demais para a luta

Massa de degenerados por sentença de vida
Ergam-se de suas alcovas
cemitérios do gozo e do prazer

Enterremos nossos senhores esta noite.
Todos.

Quimera

Quimera

Em rodopios dionisíacos, descabelar-me
Mesmo não sendo esperado
Amando um simulacro de passado
Ouvindo melodias que não mais possuem razão
Declamando versos que não dizem nada

Assim, dessa forma seguiria uma trilha pela qual
Entre tantas outras, me levaria afinal ao fim
Fim das angústias de não tentar e decepcionar mais uma vez.

Tornando-me bêbado com aquele copo de absinto.
As ideias de sublimação da alma se esvaem
como nuvens de uma chuva de verão.
Inferno da alma esse de amar sem cessar.
Esquecer forçado da vida para seguir.

Quem sabe eu não devesse mesmo gritar aos quatro ventos
Xingar, face a quem odeio, em verdade.
Que não sinto mais nada. Que não ligo. Não me importo.
Desabafar como um adolescente com palavras vazias.

Assim, com lágrimas nos olhos, descabelado
sem sentir nada.

terça-feira, março 12, 2013

Ruído e silêncio



Mundo.
Pessoas.
Luta diária. Morte diária.
Esperança?
Ranço inconteste de uma mente ainda sã.

Fantasma em uma ópera, há muito esquecida.
Percorro os seus corredores assustando pobres ratos.
Nada mais.

Memórias de uma vida, nada mais.
Memórias?

O tiro que é dado no beco ao lado.
O corpo que cai e não é visto senão por mim.
O corpo e sua ausência.
O que causa ausência: o corpo ou as palavras?

O corpo que anda, toca, acaricia, beija e sorri
Ou a voz que silenciada, não mais é escutada
O que causa ausência?

O corpo que luta, levanta bandeira e bate de frente
Ou a voz que discursa, ideologiza e bate de frente
O que causa ausência?

O que causa ruído, o que quebra silêncio?
Ordens sendo quebradas
O poder sendo tomado
O discurso que une milhares
O choro da violência
O tiro que deita o corpo
O verbo que escraviza
O legalizado que é ilegal

O que causa ruído, o que quebra silêncio?
O que causa ausência, corpo ou palavra?

segunda-feira, agosto 13, 2012

Deicida Reincidente

Eu que profano todos os nomes santos
Iconoclasta por nascimento, clamo meu direito
à ser deicida reincidente de todos os deuses
Modernos ou da Antiguidade.

Eu clamo o negro e pífio sangue de judas
como meu antepassado e a sua glória
Dias bárbaros nas escarpas gélidas ou
nos desertosperdidos na memória do mundo.
Diante de altares de sacrífico, vidas jogadas ao nada
ouro e mirra queimados aos quatro ventos
enquanto corações temerosos juntavam as mãos em vã oração

Sol ou neve, cruz ou estouro de bois,
entes mais antigos guiavam as mentes cegas
pregavam sua verdade pelos obscuros tempos em que vivemos
pagãs entidades, agora mortas.
Outras vivas.

Deicida reincidente, glorifico-me no sangue divino
na eterna tarefa de guerrear
contra sombras que nunca existiram.

domingo, maio 06, 2012

Fogo e gelo

Em face da sua face frágil, não fraca
Com os cabelos bagunçados, os olhos marejados
Vejo-me em eterna contemplação
De uma estátua barroca
Entre o fogo e o gelo

Com a face de uma força aparente
E um interior de uma doce fragilidade
Que preciso por vezes me esquecer
E quando acontece, quase a quebro
Vendo cair os cacos por toda parte

Contemplo a face da mais bela imagem
Essa harmônica desarmônica harmonia
Em constante ebulição que me fascina
E me irrita, me beija, e se deita
Lânguida, como as ninfas narradas,
contadas, desejadas

Perdendo-me em seus lençóis , não sei mais
De tempo ou intento do vento que corre
Que percorro em seus mares de doces e perco
Prazeres, por vezes, acres, na maior parte, doces

E assim me inebrio de seus olhares envergonhados
No cadafalso dos prazeres
Para secar suas tristezas, para sorver seus sorrisos
Saciar-me de teu corpo, lograr-te minha escrava e rainha
No caos aparente das quatro paredes.

Em 22 de novembro de 2011.

sexta-feira, maio 04, 2012

Diário de um suicida em potencial

Esse enjoo sempre me visita e me embrulha o estomago. Dá-me tontura e náusea. Só passa depois do terceiro Dry Martini. Porque sempre que lembro de certas coisas sinto-me como uma grávida prestes a parir?
Era assim que me sentia naquela noite de um dia de agosto, quando os meus amigos não mais aguentavam beber e eu, já, lá pelas últimas. Pensando em ir embora e nenhum deles resolviam. Não sabia se alguém me acompanharia ou não para rachar o táxi, já que eu mesmo estava duro, sem um trocado para voltar com alguma dignidade para casa. Palavra, até certo ponto engraçada, que me vinha à mente de quando em quando e nada me dizia mais. E, se não fosse pelas tantas vezes que me percebi sem ela, quem sabe aonde eu teria parado? Essas lembranças dessa espiral descendente começaram mais ou menos assim...
- Daqui parece tudo tão pequeno e insignificante. Por que pôr um fim em tudo por causa de motivos tão pequenos? Eles não merecem o nosso sacrifício. Por quê?
- Pula! Ou perdeu a tua convicção? A tua fé?
- Mas é isso que me pergunto. Por causa de que infernos estou pulando, abortando tudo aquilo que vivi por medo? Ou pelo quê? Sequer sou Cristo, não nasci para isso!
- Covarde! Todos covardes! Sempre quis saber se existiria algum que não fosse covarde, algum que não fosse hesitar, qualquer ser que pudesse encarar a verdade presente nesse momento.
Enquanto ela continuava a falar, seus olhos verdes brilhavam de encontro às luzes da cidade naquela noite sem chuva de um céu coberto por estrelas, tendo como música ambiente alguma canção alegre ao fundo. Abaixo de nossos pés, naquele momento de uma decisão que era ao mesmo tempo estúpida, espúria e sem garantias, estavam: gigolôs, prostitutas, travestis, narcotraficantes, traficantes, ambulantes de porta de boate, vendedores de bebidas adulteradas e toda a dor que trouxe eu e ela cá  pra cima.
Ao fundo a música alegre e feliz que tocava contrastava com aquele momento de decisões radicais. Quase achei graça. Nossas vozes não chegavam aos ouvidos do segurança que escutava seu MP3 no último volume, prestava atenção em alguma outra coisa sendo transmitida pela TV portátil ou pelo radinho de pilha do companheiro de mais idade, também surdo para o que ocorria cerca de dezoito andares acima de sua cabeça.
- Pula! – Dizia ela. – Se não vai que vá eu para não mais olhar para teu rosto covarde ao dizer que me amava.
- Eu a amo! – Gritei eu. – Não sei ao certo ao que isso nos levará... aonde iremos...
- Não me importa aonde iremos, mas que iremos...
Nossas vozes ecoaram pelos becos e pátios dos prédios empresariais vazios naquela hora no meio da madrugada. Os dois vigias escutaram, mas não imaginavam o que estava se desenrolando. Olharam um para o outro e continuaram o que estavam fazendo. Eu e ela parados por segundos nos olhando, nos beijamos. A música vinha de uma boate próxima, um hit pop do momento. Não lembro o que era. Naquele momento dentro da balada alguém desmaiava no banheiro por overdose. Os seguranças carregaram a pessoa para a calçada e a deixaram lá. Nenhum amigo por perto. Dois rapazes ligaram para a emergência. Aquele não seria o dia daquela pessoa. De quem seria?
O silêncio do momento era imenso e parecia ter nascido com o mundo e não tinha data para terminar. Sabíamos que as palavras não bastariam mais para mudar as decisões que estavam em nossas mentes. Era um silêncio que explicava mais que tudo a minha covardia, ou deveria dizer coragem?
Eu sabia o que ela iria fazer e ela sabia o que eu iria fazer e nossos corações encheram-se de um pesar ancestral, milenar que não nos pertencia e não sabíamos de onde vinha esse sentimento que não era nosso, por um momento vi a hesitação nos olhos dela e ela enxergou algo em meus olhos, mas não sabíamos com exatidão o que poderia significar aquilo tudo e quando não mais importava qualquer coisa. Um homem magro, com as feições muito rudes e em sua mente pensamentos confusos pensava apenas em seguir a pessoa que estava na sua frente logo ali perto em um dos inúmeros becos, sem polícia por perto ele abordou sua vítima que segurou a bolsa com força ele sacou a arma e a mulher não viu e um carro passava avançando o sinal vermelho e a música agora era outra na balada e alguém chegava no hospital com overdose.
Alguns escutaram o tiro que tirara a vida da mulher que se agarrara a bolsa como a um bote salva-vidas, os médicos da emergência perguntavam o que o jovem havia tomado e ninguém escutou o baque surdo da queda de um corpo que caíra do décimo oitavo andar para permanecer deitado no pátio externo, enquanto um homem descia as escadas com o mar nos olhos e dois seguranças não o viram sair pela saída de serviço junto com um entregador de pizza que acabava de deixar uma quatro queijos no décimo sétimo andar.
A pizza estava boa. Todos gostaram. Estavam vendo TV. A música alegre era de um comercial.