sábado, junho 10, 2017

Vagância

O copo sobre a mesa
O corpo sobre a cama
Ambos vazios
de esperanças

Matérias prontas para usar
Uma querendo, outra sem dar conta

Quase escravo, aquele corpo, suplicando
Quase escrevo aquele corpo suplicando
Implorando, por mais, meu olhar compenetrado
no copo
Vazio e estático, em cima da mesa.

A garrafa de vodka ao lado.
Pela metade. O livro caído no chão. E o corpo me olhando.
Os sons que vinham da cama, seduziam-me e mais uma vez subi.
E a usei, como havia me pedido.

Agora, corpos sobre a cama.

Eu disse, apenas, não.
Não que não queira a escrita, suada na pele da amada
em estertores de amores proibidos em camas suadas
rançosa mania de esperar tudo certo.

É que tudo que se passa na realidade invade minha mente
contente em não ser mais do mesmo, indiferente.
Como se fosse um herói, asceta indignado.
No alto longínquo de meu ego inflado.

Contrafaço o que digo, como um dogma hipócrita.
Desejos de simplicidades perdidas e pernas bambas.
Sonhos que cabiam num céu claro de brigadeiro
no sonho da criança que se foi.

Abismo que se forma e nele se forma a alma.

O copo e o corpo vazios.

segunda-feira, julho 14, 2014

Saindo da inércia

Não sei porque escrevo
Não entendo nenhuma das palavras que caem sobre a folha branca
Não conheço nada do léxico utilizado para passar essa mensagem
Não sou, não entendo e não sei se quero saber nada disso.

Sou um retrato da minha geração indiferente
com relação ao todo e às partes que compõe a obra.

Nem sei mesmo ao que vim e porque me drogo
Dia após dia.

Sinto a angústia
De uma infinita dor sem motivo
de uma depressão sem causa
de um vazio criado por tudo que tenho

O carro que ganhei ao passar no vestibular
O apartamento que ganhei ao me casar
A escola dos meus filhos paga por tê-los tido.
A babá VIP que tenho, o emprego que o amigo do meu pai me deu
A esposa que a família aprovou
A carreira que o pai indicou

Mas o mundo não irá parar
Porque mais um desistiu, nem será erguido nenhum monumento
em memória de mim.
A paisagem continuará imutada até o próximo empreendimento
imobiliário chegar ao lugar.

E esse frio
Sinto um frio que parece se espalhar
Um inverno frio e calmo
Com promessas de um conforto nunca antes sentido
Que não me promete nada
Que não me diz que haverá dias felizes

Encolho-me mais ainda diante das reflexões doentes que me surgem
dessa vontade de nada fazer.
A TV ligada à frente, não diz nada.
Conforto para os entorpecidos.

Na hora de mudar, abrirei um livro.
E colocarei fogo na cidade.
Quem sabe, para aquecer esse frio na alma.
Quem sabe?

segunda-feira, março 17, 2014

Comédia ou Tragédia

A vida que por uma tênue linha é dividida dos seus outros aspectos
Também separa picadeiro e plateia
No encontro de pessoas muito sérias, outras nem tanto
E lá embaixo, o palhaço no ofício de fazer rir
De fazer rir sem chorar, e quem o faz rir?

A imagem refletida no espelho
Como se a linha que o separou da plateia antes
Agora o separasse em partes dele mesmo
Separando-o de um eu ilusório, mascarado, sempre risonho
Separando o drama da tragédia, o riso e o choro

Toda ilusão de risos provocados pelas suas caras e bocas
Em frente ao espelho, olhando no fundo de seu duplo eu
Ele começa a se despir de toda pintura de guerra
E vagarosamente segue para outro lugar, quem sabe casa

Se há casa, lar, sorrisos e abraços o esperando pouco importa,
Ninguém se importa, quem se importa com o palhaço?
E a porta que se abre desvela na noite da sala mal iluminada
Uma mesa de centro e um copo vazio sobre
Que se destaca, não se sabe ao certo porque

E o olhar cansado se detém por longo instante ali
Sobre aquele copo e nos detalhes que o envolvem
Sem saber se a aflição que sentia era amplificada pelo reflexo
Simbólico que o copo vazio significava
Afligia-lhe o copo vazio ou o vazio do corpo

O vazio do copo como corpo sem substância
Que se encontrava nele irmão em circunstância
Ou como ponto de apoio da sede que desenha sem sua garganta
Despontando no horizonte como raio de sol negro
Escurecendo tudo que o dia mais pudesse lhe trazer?

Quem agora o faria sorrir no ápice de sua tragédia
No ato derradeiro quem o salvaria do copo de veneno
Ou apareceria alguém para dividi-lo, como irmãos ou amantes
Em um pacto de morte.

Processo diário e constante de ascensão e queda
Comédia ou tragédia, Riso ou Choro
Uma bala na cabeça ou mais uma dose de nada
Então pega da garrafa que enche o copo
Liga a TV.
Mais um dia. Menos um dia.

Vida que segue.

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

À espera



Talvez, aquela noite, com o cigarro de canto de boca, rabiscando um guardanapo em cima da mesa, fosse o dia certo para pensar em tudo que passou. O tempo de espera. Saber como era estar há minutos de um acontecimento sem saber se esses minutos se estenderiam por horas de uma angústia que não teria fim enquanto durasse. O copo meio vazio à minha frente tinha as marcas dos meus dedos, um drinque sem gelo, o copo quente e lá, as marcas de meus dedos engordurados, à espera.
À espera de um ato qualquer que mudasse a trajetória dos acontecimentos dos dias idos, semanas, meses, anos atrás. Saberia agora o que sente a senhora, de cotovelos na janela, aguardando seu amado companheiro a voltar da guerra. Sem promessa alguma de que isso se realizaria. Seria muita sorte se no lugar, ganhasse os braços do seu amado e não um saco preto e uma carta com os pesares das forças armadas, enaltecendo o bravo guerreiro que foi. A espera é o inferno.
Estar ali, na curva da esquina sem saber o que vem: Jack, o estripador ou amor da sua vida, uma revolução ou a guerra sem sentido. A espera é estar ali, numa suspensão do próprio devir e do ser, formado até ali. É um não estar e não pisar em parte alguma.
Ah, aquela noite! Aquela noite prometia, como prometia, aguardava, já suado, sofrendo de véspera, poeta do acaso e ocaso sem nada a temer, à não ser a espera, maldita e ininterrupta.
O cigarro acaba. Acendo outro. Peço mais um drinque. E continuo à rabiscar coisas aleatórias no papel. Um número, uns versos, quem sabe um ensaio sobre o que vou dizer. Penso e cogito as possibilidades dessa noite tão agradável aqui, em São Gonçalo. Começo a divagar sobre a beleza do lugar e sobre as cadeiras de madeira dos barzinhos na beira dessa rua. O vai e vêm das pessoas apressadas saindo do metrô. Esse clima de que tudo pode acontecer, sexta-feira, todos celebram! Fim do expediente. A garota sai do prédio com sua habitual roupa de trabalho. Senta com uns amigos e começa a beber bem próximo a minha mesa. Eu à escutar toda a conversa sem muito sentido do seu dia estafante de trabalho, como o Rodrigo ou o Paulo ou o Sérgio ou o Augusto ou o Dr. Castro ou o bosta do Barbosa tinham sido escrotos ao longo da semana.
Mas a espera continua. Mantendo em suspenso qualquer coisa. E os rumos da conversa me desinteressam.
Até a Renata me pedir um fósforo. Nome Renata, sim. A mesma que falava e falava com mais dois amigos e uma amiga na mesa ao lado. Acendi o cigarro da moça e voltei novamente aos meus rabiscos e a minha contemplação. "Obrigada"; "de nada". Seguem-se os rumos e nada acontece.
Não sei se esse vazio que permeia de certa incerteza as conversas cotidianas é algo que me incomoda ou me atrai. Se é um fascínio pelo genuíno ou pelo grotesco do nada em que os comuns são imersos dia após dia.
E a espera, a espera estava ali, áspera, à espera comigo, a noite toda.

quarta-feira, novembro 06, 2013

Efêmera busca

Pisando em ratos como se fosse um deus cruel
Que, do alto, olha para os seres menores
Desprezando-os e os punindo sem motivo qualquer
Apenas ao bel-prazer, traz dor e desconforto

Assim, vai levando seus sentimentos
Fingindo amar como um carrasco que prepara a lâmina
Afiando-a vagarosamente nos sentimentos alheios
Para lhes arrancar violentamente toda esperança
Sangrando lágrimas deixa suas vítimas ao chão

Demiurgo, criador de nada.
Preenche o vazio, criando vazios
De dor e medo que não sabe quando sararão
Prisão dormente onde não crescem lírios

Dor e lágrimas de feridas não saradas
Fenda na carne que sangra
Estertor mortuário de um corpo que exaure
Suas forças à lutar, adiar a derrota
Mártir, crucificado à sombra em uma cruz

Levando a vida como ídolo dos ímpios
Iconoclasta de sentimentos vãos
Não sabe preencher o próprio vazio.
Busca no espelho que são os olhos alheios

A imagem de si que sorria e diga um dia
Que a brisa que corre por sobre a pele
Naquele dia quente, de frente à praia
Beijou os lírios de sonhos já esquecidos
E que carrega um aroma etéreo de lembranças.

quinta-feira, outubro 10, 2013

Um passado



Andando de ônibus pela cidade
que tanto conheço, seus becos e vielas
botecos e sarjetas, o lugar dos proscritos
Passo diante de uma rua
Que ao meu passado me remete
Saudosista, nostálgico ou idiota, pouco importa
Em que amei, de forma juvenil, uma garota
Que hoje, se quer sei a face que se encontra
Portanto, possa dizer que amei verdadeiramente
e que acreditei, nas escadarias daquela rua
que duas almas poderiam se entrelaçar
para sempre, enquanto durasse.

Desistência

É sempre aquele mesmo ódio preso no peito
uma coisa velha e arcaica que segue contigo
Dia após dia. Mês a mês. Ano após ano.
Sempre o mesmo ódio, sem alvo, pois não há o que odiar.

Sempre aquele mesmo gosto de fel na boca
Tirando o sabor de tudo que entra boca adentro
Do sexo, do álcool que nunca lhe sacia
A briga já perdeu o sabor, violência sem substância

Mesmo que socasse todos os idiotas do bar
Ainda existiria o vazio que sempre está lá
Preenchendo seu interior por completo
Completo de vazio.

Das orações antigas, apenas pó em sua boca
Árvores, crucifixos, santos, espíritos ou meditação
Palavras são vento, assim como as orações
Completo do mais profundo vazio.

Mesmo quando procurou dentro de si
Saciar essa angústia de querer sempre algo
Cortando a própria pele e adentrando em sua carne
As mãos besuntadas de sangue coagulado: vazio.

Olhando para o vazio primordial
o medo lhe percorreu toda a cervical
arrepiando todos os pelos do seu corpo
e o pulo para o vazio definitivo se fez.

07/11/2012

sábado, setembro 14, 2013

Sobre amar

Só consigo amar bêbado.
O amor, por si só, é um tormento
Como poderia suportá-lo sóbrio?
Quem diz ter força para tal, está mentindo!
Ou não ama. Simples.

Quem ama, sente sede, a garganta seca
pedindo por mais um gole que o inebrie
que o encha da lascívia necessária
do pouco de morte que se carrega quando ama
essa sofreguidão que não te deixa respirar

Sufoca e traz em si, morte e vida.
Dor e gozo. Vontade de casa e boemia.
Como pode alguém cogitar ficar sóbrio ante tamanho fardo?
Essa agonia que queima sem parar de dentro pra fora
fazendo o sangue ebulir em formas eróticas

Que entre lençóis se faz em gemidos cálidos
de suplicantes dessa dor que perpassa o corpo e alma
dementes, perdidos, sem querer rumo algum
deixados ao vento da sorte que os leve ao inferno se assim for
para a sublimação dos corpos em êxtase profano

O sacramento sombrio do pacto feito entre dois entes
que se entrelaçam em profusões serpentinas
odiando e adorando, deuses deles mesmos
sem nada que quebre sua fé

Como amar sóbrio se amar é estar bêbado.

Cidadão de Bem

todos os meus amigos de infância
tornaram-se homens de bem
só eu ainda ando pelas ruas como um ébrio
vagando sozinho e pelos becos
trocando ideias com a corja
como os rejeitados que são
não têm família que os acolha
nem braços carinhosos que os afaguem
somente o álcool, a luxúria e a boemia
em longas noites frias

tentar todos os dias ser a mesma coisa insossa
cantar a mesma ladainha todos os dias ao chefe
viver a mesma vida triste por escolha
todo santo dia!
como conseguiria?

como eu queria ter feito um filho
arranjado um trabalho de segunda à sexta
bater cartão, ser sóbrio, ir à igreja
beijar à esposa como um hábito sem importância
quem sabe, ter um carro, enfrentar congestionamento
ter uma gastrite, contas à pagar

quem sabe, ter a filha rainha do baile,
o filho capitão de futebol
a esposa missionária
e eu, ali, vazio de sentido.
cumprindo o mesmo roteiro que os meus amigos escolheram.

sério! eu até me esforcei bastante pra isso
mas não consegui. rezei um terço e me confessei
de nada adiantou, continuei torto.

logo eu dado à exageros
o perdido, o pecador, o lascivo
o desvirtuado, derrotado, perdedor
fracassado, egoísta e blasfemo
de mal com Deus e o Mundo.
admirador de lascivas mulheres
algumas até prostitutas
doente, pervertido e subversivo
como eu, dono de tantas distintas qualidades
poderia ser um cidadão de bem?

como se eu quisesse.

terça-feira, agosto 13, 2013

O poeta e a escrita

A vida toda
Para escrever um poema
Sem poesia alguma
Que faça qualquer sentido
De qualquer maneira, para algum Mané.

Garranchos escritos ou jogados
Para ocupar o tempo na era dos occupy
Invencionando termos
Soltos no papel branco
A folha em branco e a quimera do poeta
Perseguida em flores, deflores, amor e desamores
Defloradas as opções, segue
rabiscando referências perdidas
Esquecidas, subjugadas, preteridas
Em razão de uma vida fluida
Corrida, morrida de morte virtual
Matriz de um protótipo de poeta

Que ainda pensa que sabe poetar.

Repetições cíclicas de uma mente redundante

Como é que se cura a angústia
Do medo do vazio do dia-a-dia
Dado o que é dado todos os dias noticiado

Como é que se cura a ferida
Que não aberta, não pode ser fechada
Que não conhece inicio, menos ainda fim

Como é que se luta
Todo dia na labuta, sob o chicote
Etéreo, do patrão sem face ausente

Como é que sei de algo
Quando algo não é sabido se quer
Sequer ser sabido por ação ou inação

Como é que falo de ação
Quando ação de um cão feroz
Silencia a voz de seus cidadãos

Assim é que sei que a angústia
Do medo vazio do dia-a-noite
Que abre a ferida fantasma
Que dói no lombo que luta na labuta
Que não se sabe se enquanto saber
Se sabe-se dever ou luta
Que apavora a alma do que ama
Fenda do vazio sob o chicote dos amos sem face
Angustiados no mosaico de paixões
Que insistem chamar ação.

Assim é que sei.
Talvez.

quarta-feira, agosto 07, 2013

Gehenna

Gehenna

Como sublimar as tristezas de um mundo decaído
deteriorando em caos e miséria
Abandonado por qualquer entidade possível

Como transcender em meio à fome e a guerra
decaindo em desgraça, profanando à tudo como resistência
Iconoclastia obsessiva diária e constante

Queimando os ídolos que nos acorrentam
Crucificando pastores de ovelhas cegas
Sofrendo em silêncio o luto da própria alma

Observando de becos escuros, que ninguém frequenta
longe dos olhos virgens dos senhores
A fealdade da realidade ignorada encarnada

Um vira-latas entre seus iguais, tantos
caçando os pedigrees, tão poucos
uma massa que ainda dormente, atormenta

Uma torrente de cães acorrentada
surrados diariamente, esgotados de esperança
Comendo os restos, alguns, outros, velhos demais para a luta

Massa de degenerados por sentença de vida
Ergam-se de suas alcovas
cemitérios do gozo e do prazer

Enterremos nossos senhores esta noite.
Todos.

Quimera

Quimera

Em rodopios dionisíacos, descabelar-me
Mesmo não sendo esperado
Amando um simulacro de passado
Ouvindo melodias que não mais possuem razão
Declamando versos que não dizem nada

Assim, dessa forma seguiria uma trilha pela qual
Entre tantas outras, me levaria afinal ao fim
Fim das angústias de não tentar e decepcionar mais uma vez.

Tornando-me bêbado com aquele copo de absinto.
As ideias de sublimação da alma se esvaem
como nuvens de uma chuva de verão.
Inferno da alma esse de amar sem cessar.
Esquecer forçado da vida para seguir.

Quem sabe eu não devesse mesmo gritar aos quatro ventos
Xingar, face a quem odeio, em verdade.
Que não sinto mais nada. Que não ligo. Não me importo.
Desabafar como um adolescente com palavras vazias.

Assim, com lágrimas nos olhos, descabelado
sem sentir nada.

terça-feira, março 12, 2013

Ruído e silêncio



Mundo.
Pessoas.
Luta diária. Morte diária.
Esperança?
Ranço inconteste de uma mente ainda sã.

Fantasma em uma ópera, há muito esquecida.
Percorro os seus corredores assustando pobres ratos.
Nada mais.

Memórias de uma vida, nada mais.
Memórias?

O tiro que é dado no beco ao lado.
O corpo que cai e não é visto senão por mim.
O corpo e sua ausência.
O que causa ausência: o corpo ou as palavras?

O corpo que anda, toca, acaricia, beija e sorri
Ou a voz que silenciada, não mais é escutada
O que causa ausência?

O corpo que luta, levanta bandeira e bate de frente
Ou a voz que discursa, ideologiza e bate de frente
O que causa ausência?

O que causa ruído, o que quebra silêncio?
Ordens sendo quebradas
O poder sendo tomado
O discurso que une milhares
O choro da violência
O tiro que deita o corpo
O verbo que escraviza
O legalizado que é ilegal

O que causa ruído, o que quebra silêncio?
O que causa ausência, corpo ou palavra?

segunda-feira, agosto 13, 2012

Deicida Reincidente

Eu que profano todos os nomes santos
Iconoclasta por nascimento, clamo meu direito
à ser deicida reincidente de todos os deuses
Modernos ou da Antiguidade.

Eu clamo o negro e pífio sangue de judas
como meu antepassado e a sua glória
Dias bárbaros nas escarpas gélidas ou
nos desertosperdidos na memória do mundo.
Diante de altares de sacrífico, vidas jogadas ao nada
ouro e mirra queimados aos quatro ventos
enquanto corações temerosos juntavam as mãos em vã oração

Sol ou neve, cruz ou estouro de bois,
entes mais antigos guiavam as mentes cegas
pregavam sua verdade pelos obscuros tempos em que vivemos
pagãs entidades, agora mortas.
Outras vivas.

Deicida reincidente, glorifico-me no sangue divino
na eterna tarefa de guerrear
contra sombras que nunca existiram.

domingo, maio 06, 2012

Fogo e gelo

Em face da sua face frágil, não fraca
Com os cabelos bagunçados, os olhos marejados
Vejo-me em eterna contemplação
De uma estátua barroca
Entre o fogo e o gelo

Com a face de uma força aparente
E um interior de uma doce fragilidade
Que preciso por vezes me esquecer
E quando acontece, quase a quebro
Vendo cair os cacos por toda parte

Contemplo a face da mais bela imagem
Essa harmônica desarmônica harmonia
Em constante ebulição que me fascina
E me irrita, me beija, e se deita
Lânguida, como as ninfas narradas,
contadas, desejadas

Perdendo-me em seus lençóis , não sei mais
De tempo ou intento do vento que corre
Que percorro em seus mares de doces e perco
Prazeres, por vezes, acres, na maior parte, doces

E assim me inebrio de seus olhares envergonhados
No cadafalso dos prazeres
Para secar suas tristezas, para sorver seus sorrisos
Saciar-me de teu corpo, lograr-te minha escrava e rainha
No caos aparente das quatro paredes.

Em 22 de novembro de 2011.

sexta-feira, maio 04, 2012

Diário de um suicida em potencial

Esse enjoo sempre me visita e me embrulha o estomago. Dá-me tontura e náusea. Só passa depois do terceiro Dry Martini. Porque sempre que lembro de certas coisas sinto-me como uma grávida prestes a parir?
Era assim que me sentia naquela noite de um dia de agosto, quando os meus amigos não mais aguentavam beber e eu, já, lá pelas últimas. Pensando em ir embora e nenhum deles resolviam. Não sabia se alguém me acompanharia ou não para rachar o táxi, já que eu mesmo estava duro, sem um trocado para voltar com alguma dignidade para casa. Palavra, até certo ponto engraçada, que me vinha à mente de quando em quando e nada me dizia mais. E, se não fosse pelas tantas vezes que me percebi sem ela, quem sabe aonde eu teria parado? Essas lembranças dessa espiral descendente começaram mais ou menos assim...
- Daqui parece tudo tão pequeno e insignificante. Por que pôr um fim em tudo por causa de motivos tão pequenos? Eles não merecem o nosso sacrifício. Por quê?
- Pula! Ou perdeu a tua convicção? A tua fé?
- Mas é isso que me pergunto. Por causa de que infernos estou pulando, abortando tudo aquilo que vivi por medo? Ou pelo quê? Sequer sou Cristo, não nasci para isso!
- Covarde! Todos covardes! Sempre quis saber se existiria algum que não fosse covarde, algum que não fosse hesitar, qualquer ser que pudesse encarar a verdade presente nesse momento.
Enquanto ela continuava a falar, seus olhos verdes brilhavam de encontro às luzes da cidade naquela noite sem chuva de um céu coberto por estrelas, tendo como música ambiente alguma canção alegre ao fundo. Abaixo de nossos pés, naquele momento de uma decisão que era ao mesmo tempo estúpida, espúria e sem garantias, estavam: gigolôs, prostitutas, travestis, narcotraficantes, traficantes, ambulantes de porta de boate, vendedores de bebidas adulteradas e toda a dor que trouxe eu e ela cá  pra cima.
Ao fundo a música alegre e feliz que tocava contrastava com aquele momento de decisões radicais. Quase achei graça. Nossas vozes não chegavam aos ouvidos do segurança que escutava seu MP3 no último volume, prestava atenção em alguma outra coisa sendo transmitida pela TV portátil ou pelo radinho de pilha do companheiro de mais idade, também surdo para o que ocorria cerca de dezoito andares acima de sua cabeça.
- Pula! – Dizia ela. – Se não vai que vá eu para não mais olhar para teu rosto covarde ao dizer que me amava.
- Eu a amo! – Gritei eu. – Não sei ao certo ao que isso nos levará... aonde iremos...
- Não me importa aonde iremos, mas que iremos...
Nossas vozes ecoaram pelos becos e pátios dos prédios empresariais vazios naquela hora no meio da madrugada. Os dois vigias escutaram, mas não imaginavam o que estava se desenrolando. Olharam um para o outro e continuaram o que estavam fazendo. Eu e ela parados por segundos nos olhando, nos beijamos. A música vinha de uma boate próxima, um hit pop do momento. Não lembro o que era. Naquele momento dentro da balada alguém desmaiava no banheiro por overdose. Os seguranças carregaram a pessoa para a calçada e a deixaram lá. Nenhum amigo por perto. Dois rapazes ligaram para a emergência. Aquele não seria o dia daquela pessoa. De quem seria?
O silêncio do momento era imenso e parecia ter nascido com o mundo e não tinha data para terminar. Sabíamos que as palavras não bastariam mais para mudar as decisões que estavam em nossas mentes. Era um silêncio que explicava mais que tudo a minha covardia, ou deveria dizer coragem?
Eu sabia o que ela iria fazer e ela sabia o que eu iria fazer e nossos corações encheram-se de um pesar ancestral, milenar que não nos pertencia e não sabíamos de onde vinha esse sentimento que não era nosso, por um momento vi a hesitação nos olhos dela e ela enxergou algo em meus olhos, mas não sabíamos com exatidão o que poderia significar aquilo tudo e quando não mais importava qualquer coisa. Um homem magro, com as feições muito rudes e em sua mente pensamentos confusos pensava apenas em seguir a pessoa que estava na sua frente logo ali perto em um dos inúmeros becos, sem polícia por perto ele abordou sua vítima que segurou a bolsa com força ele sacou a arma e a mulher não viu e um carro passava avançando o sinal vermelho e a música agora era outra na balada e alguém chegava no hospital com overdose.
Alguns escutaram o tiro que tirara a vida da mulher que se agarrara a bolsa como a um bote salva-vidas, os médicos da emergência perguntavam o que o jovem havia tomado e ninguém escutou o baque surdo da queda de um corpo que caíra do décimo oitavo andar para permanecer deitado no pátio externo, enquanto um homem descia as escadas com o mar nos olhos e dois seguranças não o viram sair pela saída de serviço junto com um entregador de pizza que acabava de deixar uma quatro queijos no décimo sétimo andar.
A pizza estava boa. Todos gostaram. Estavam vendo TV. A música alegre era de um comercial.

quarta-feira, abril 25, 2012

Ladeiras, abismos e sonhos


Eu olho a ladeira
e não espero as lembranças passarem.
Lembranças que lembram
o odor do vinho; dois corpos bêbados
que lembram dia de lua cheia.
Corpos em queda pela ribanceira
vertiginosa das noites sem olhos
para julgá-los como amaram naquela noite.
Os mais rotos dos anjos
que de tão tortos,
sequer lembravam alguma coisa.

Quer saber?
Acho que não
eu bem que poderia repetir isso de novo
se ser feliz por mais uma noite
é aquilo, que fique na lembrança
e ter aquilo que sempre quis
quis? quero?

Eu que olho a ladeira:
A Ladeira dos Corpos
A Ladeira-abismo do amor
Corpos em profusão libidinosa
Na espiral descendente
encharcados de vinho

Corpos encharcados de paixões
como dois niños
que não percebem que já se foi o dia
brincando como toda criança brincaria
de faz de contas, vivendo o sonho
que os adultos apenas dardejam ao longe
como ilha deserta no oceano longínquo
o alvo etéreo de seus sonhos

Eu adulto que dardejo meus sonhos por aí,
como anjos tortos de paixão e vinho,
na esperança de acertar a desesperança.