domingo, abril 24, 2011
Cessar
Morte, mesmo que morto jaz.
Que seja com sabor de felicidade entre os lábios.
A boca cheia de whisky ou cheia do mel que escorre
de entre as pernas voluptuosas de um amor.
Sorvendo o que a vida ávida lhe dá,
antes da temida hora já não mais temida chegar
Que tudo seja súbito sem mais, a já desnecessária, dor.
E no cessar de todo canto de pássaro,
todo perfume das flores,
toda poesia que um dia saiu de sua boca.
No cessar de mais um mundo,
o cessar de mais um sonhador.
sábado, janeiro 15, 2011
Sem razão
Mesmo o sol que torna tudo belo
Não ousava entrar em meu quarto
Onde tudo era breu
Com a alma eclipsada, sem viva alma como companhia
Nem mesmo um corvo apareceu em meu umbral
Lágrimas e versos, quem iria me dizer nunca mais?
Livros empoeirados na estante
Aguardando pelos olhos já cansados, velhos, solitários
Perdidos em um horizonte de esperanças despedaçadas
E na lembrança turvada pelo wiskhy e pela vodka
Não havia mais amores, nunca existiu uma Lenore ou Helena
Quem iria me dizer esqueçais.
Sem corvo, amada ou se quer dor verdadeira,
então, por que sofria noite e dia?
Não ousava entrar em meu quarto
Onde tudo era breu
Com a alma eclipsada, sem viva alma como companhia
Nem mesmo um corvo apareceu em meu umbral
Lágrimas e versos, quem iria me dizer nunca mais?
Livros empoeirados na estante
Aguardando pelos olhos já cansados, velhos, solitários
Perdidos em um horizonte de esperanças despedaçadas
E na lembrança turvada pelo wiskhy e pela vodka
Não havia mais amores, nunca existiu uma Lenore ou Helena
Quem iria me dizer esqueçais.
Sem corvo, amada ou se quer dor verdadeira,
então, por que sofria noite e dia?
terça-feira, agosto 17, 2010
Catarse
Chuva. Música. Espírito e mente.
Rotina passiva, melancólica.
O frio de agosto e sentimentos irmãos.
Era de incertezas malditas.
Busca pelo medieval.
Na arte, na essência, na morte.
Fuga para as aventuras, as glórias.
Via fibra ótica.
Quanta modernidade, quanto conhecimento.
Quanta mediocridade, quanto açoitamento.
As vezes, esquecemos de tudo.
Na alcova de minha solidão, penso.
No leito nupcial de meu tormento, penso.
Descubro apenas trevas.
Sem pranto ou lástima.
Mesmo que este fosse um último grito
Quem saberia?
Para quem gritaria eu?
Para que alma além destas quatro paredes?
Nenhuma é tão amaldiçoada.
Nenhuma é tão açoitada. [como se sentisse o peito apertado
contra o tronco frio e sentisse a chibata
arder repetidas vezes, abrindo carne e dilacerando
músculos, ossos e espírito.]
Dilacerada.
Chuva. Música. E só.
Chuva. Música. Espírito e mente.
Rotina passiva, melancólica.
O frio de agosto e sentimentos irmãos.
Era de incertezas malditas.
Busca pelo medieval.
Na arte, na essência, na morte.
Fuga para as aventuras, as glórias.
Via fibra ótica.
Quanta modernidade, quanto conhecimento.
Quanta mediocridade, quanto açoitamento.
As vezes, esquecemos de tudo.
Na alcova de minha solidão, penso.
No leito nupcial de meu tormento, penso.
Descubro apenas trevas.
Sem pranto ou lástima.
Mesmo que este fosse um último grito
Quem saberia?
Para quem gritaria eu?
Para que alma além destas quatro paredes?
Nenhuma é tão amaldiçoada.
Nenhuma é tão açoitada. [como se sentisse o peito apertado
contra o tronco frio e sentisse a chibata
arder repetidas vezes, abrindo carne e dilacerando
músculos, ossos e espírito.]
Dilacerada.
Chuva. Música. E só.
Ode ao guerreiro caído
A espada trespassa o peito
Como a flecha atravessa a maçã
O sangue sobre a neve. Os olhos turvos.
Anjos me cercam. Há luz?
Não consigo decifrar suas faces
Sem castas, sem cruzes, mas, sim, runas!
Pois não são anjos!
Posso escutar. Cantam à minha volta.
Uma melodia. Antiga. Lamuriosa. Fúnebre.
Minha mente se expande até eras esquecidas.
Até que minha consciência se perca.
As leis naturais se dissolvem a= minha volta.
Ao longe, vejo por entre as brumas, sombras.
O meu existir não mais existe.
Tudo a minha volta sou eu.
Eu sou tudo a minha volta. E digo:
Lá vejo meu pai, lá vejo minha mãe, meus irmãos e minhas irmãs
E já não sinto mais medo. É o Valhalla.
A espada trespassa o peito
Como a flecha atravessa a maçã
O sangue sobre a neve. Os olhos turvos.
Anjos me cercam. Há luz?
Não consigo decifrar suas faces
Sem castas, sem cruzes, mas, sim, runas!
Pois não são anjos!
Posso escutar. Cantam à minha volta.
Uma melodia. Antiga. Lamuriosa. Fúnebre.
Minha mente se expande até eras esquecidas.
Até que minha consciência se perca.
As leis naturais se dissolvem a= minha volta.
Ao longe, vejo por entre as brumas, sombras.
O meu existir não mais existe.
Tudo a minha volta sou eu.
Eu sou tudo a minha volta. E digo:
Lá vejo meu pai, lá vejo minha mãe, meus irmãos e minhas irmãs
E já não sinto mais medo. É o Valhalla.
Verlustgeist
O meu amor se foi.
Não foi uma pessoa.
O meu amor se foi.
Não, já disse que não foi uma pessoa.
Não sei. Só sei que se foi.
Como se algo se quebrasse aqui dentro.
Uma pecinha pequenininha aqui dentro do nosso peito.
Como se ela mantivesse alguma coisa que agora não funciona mais.
O meu peito está frio.
Não é o tempo.
O meu peito está frio.
Droga, já disse que não é o tempo.
E nem preciso colocar agasalho.
Como se faltasse lenha na sua lareira.
Como se algo que o aquecesse, já não aquece mais.
Meus olhos já não choram mais.
Mas que merda hein!
Não é falta de água, não estou desidratado.
É como se tivesse vendido a minha alma igual naquele desenho.
Se lembra? Não? Que pena. Eu gostava.
É como se um poço de águas infindas houvesse secado.
Assim, da noite pro dia, do dia pra noite.
Já não sinto o toque quente.
Mas ainda estou vivo e não, não vou brilhar no sol.
É como se nada mais fizesse sentido. Não vivo.
Já disse, não estou morto. Apenas se foi. Tudo.
E como posso apenas existir.
Existir essa insistência na existência opaca de um ficar e não ir à parte alguma.
Morto, sem luto.
E seguir essa existência insistente de não morrer quando já se está morto.
O meu amor se foi.
Não foi uma pessoa.
O meu amor se foi.
Não, já disse que não foi uma pessoa.
Não sei. Só sei que se foi.
Como se algo se quebrasse aqui dentro.
Uma pecinha pequenininha aqui dentro do nosso peito.
Como se ela mantivesse alguma coisa que agora não funciona mais.
O meu peito está frio.
Não é o tempo.
O meu peito está frio.
Droga, já disse que não é o tempo.
E nem preciso colocar agasalho.
Como se faltasse lenha na sua lareira.
Como se algo que o aquecesse, já não aquece mais.
Meus olhos já não choram mais.
Mas que merda hein!
Não é falta de água, não estou desidratado.
É como se tivesse vendido a minha alma igual naquele desenho.
Se lembra? Não? Que pena. Eu gostava.
É como se um poço de águas infindas houvesse secado.
Assim, da noite pro dia, do dia pra noite.
Já não sinto o toque quente.
Mas ainda estou vivo e não, não vou brilhar no sol.
É como se nada mais fizesse sentido. Não vivo.
Já disse, não estou morto. Apenas se foi. Tudo.
E como posso apenas existir.
Existir essa insistência na existência opaca de um ficar e não ir à parte alguma.
Morto, sem luto.
E seguir essa existência insistente de não morrer quando já se está morto.
terça-feira, junho 22, 2010
Sob a meia verdade
Sob a meia verdade
Sob o véu de penumbras desconhecidas
Optamos pela luz ou pela escuridão
Sobre as páginas de letras opacas
Optamos pelo que é ou pelo que não é
Nossas vidas em um rumo sombrio
Nunca sendo o que desejamos
Sempre buscando a distinção e o brilho
Mostrar-se mais e melhor que todos
Vagar pela linha da distinção, não do ébrio
Vagar pela luz que faz brilhar, não a que ilumina
Vagar pelas usinas nucleares, nunca perto de vagalumes evanescentes
Cair em abismos sem enxergar o fundo, jamais.
Abraçar a loucura nunca é uma opção
Negá-la não é necessário
Necessário é optar pela mesma meia verdade
Sempre. Em qualquer lugar. Para sempre.
Ser meio feliz, meio rico, meio boêmio
Ser meio medíocre, meio hipócrita, meio honesto
Ser meio herói, meio poeta, meio escritor
Ser meio apaixonado... ter metade de um amor
Sem nunca na verdade ter tido nada.
terça-feira, maio 11, 2010
Viagem
Ó, pálida Dama
Dance comigo a última valsa
Beba desta última taça
Para não irdes sóbrio
Sem fuga ou devaneio
Ó, pálido desejo de abandonar tudo
Para deitar-me em lugar mais sereno
Onde não lembre mais deste mundo
Onde possa sentir novas sensações
Ó, grande barqueiro
Guia eterno do meu ser
Leve-me deste lugar
Está aqui a tua moeda
Hecate, receba-me em teus domínios
Deixe que adentre em teus infernos
Que tenha vinho e dança oníricos
Que seja sonho até não ser mais.
Wenceslau Teodoro Coral
Dance comigo a última valsa
Beba desta última taça
Para não irdes sóbrio
Sem fuga ou devaneio
Ó, pálido desejo de abandonar tudo
Para deitar-me em lugar mais sereno
Onde não lembre mais deste mundo
Onde possa sentir novas sensações
Ó, grande barqueiro
Guia eterno do meu ser
Leve-me deste lugar
Está aqui a tua moeda
Hecate, receba-me em teus domínios
Deixe que adentre em teus infernos
Que tenha vinho e dança oníricos
Que seja sonho até não ser mais.
Wenceslau Teodoro Coral
Santuário
Santuário
Certa vez, eu sonhei...
Me deparei com uma cena:
Havia um anjo dormindo em meu colo
Nada que eu fizesse conseguia acordá-lo
Era belo e eu o amava
Era um sonho, definitivamente!
Então subimos e eu coloquei-o em seu leito
Não quis pertubá-lo.
Fui embora de seu santuário
Sem perturbar o silêncio divino
Sem fazer com que abrisse seus olhos
Depois de embalar seu sono...
Depois de embalsamar meu coração.
Se o tempo parasse...
Seríamos uma lânguida escultura barroca
A sua face despreocupada em meu colo
Minha dor contida de tê-lo e não tê-lo
Mas quem além de mim poderia estar ali...
Quem além de mim conseguiu chegar até aqui...
Queria ser eterno...
Queria que o tempo não existisse.
Eu apenas quero.
Eu apenas amo.
Lorde Wenceslau, 08 de setembro de 2006. [Modificação em 11/05/2010]
Certa vez, eu sonhei...
Me deparei com uma cena:
Havia um anjo dormindo em meu colo
Nada que eu fizesse conseguia acordá-lo
Era belo e eu o amava
Era um sonho, definitivamente!
Então subimos e eu coloquei-o em seu leito
Não quis pertubá-lo.
Fui embora de seu santuário
Sem perturbar o silêncio divino
Sem fazer com que abrisse seus olhos
Depois de embalar seu sono...
Depois de embalsamar meu coração.
Se o tempo parasse...
Seríamos uma lânguida escultura barroca
A sua face despreocupada em meu colo
Minha dor contida de tê-lo e não tê-lo
Mas quem além de mim poderia estar ali...
Quem além de mim conseguiu chegar até aqui...
Queria ser eterno...
Queria que o tempo não existisse.
Eu apenas quero.
Eu apenas amo.
Lorde Wenceslau, 08 de setembro de 2006. [Modificação em 11/05/2010]
Ode ao caos
Ode ao caos
Eu deveria sentir saudades, um triste pesar
Sim, deveria sentir estas coisas e até outras
Penso que sou meio frio
Penso, peno, repenso, propenso à catástrofe
Abraço o indizível, abraço indizível
Espero que entendam que não entedem
Nem eu a vocês, nem vocês a mim
Abolindo a cultura, eu a liberto para que vá embora
Quero destruir igrejas, templos, bibliotecas
Precisamos renascer com novas mentes
Temos necessidade de mais necessidade
O desejo do vazio absoluto
Reconstruir o sujeito como se cada um fosse uma obra de arte
Sermos arte!
Serdes arte!
Destruir o sujeito como se ele nunca houvesse existido
Liberte-se de seu pai e sua mãe Liberte-se da posição de coitado
Foi o acaso que definiu esta posição
Assim como definiu as palavras, eu e o mundo
Liberte a ética e a moral antiquadas, renova-as com o teu sangue
Seja fluido e abrace-se enquanto transa consigo mesmo
Dê a luz uma nova vida que será retirada da sua cabeça
Seja Zeus, Deus e o diabo!
Sermos arte!
Serdes arte!
Mate os eufemismos e liberem por um segundo os seus desejos
Enfie uma faca até que o cabo encontre as costelas de Deus
Sinta pulsar o sangue divino
Libere a realidade para fluir como o mais belo caos.
Wenceslau Teodoro Coral
Eu deveria sentir saudades, um triste pesar
Sim, deveria sentir estas coisas e até outras
Penso que sou meio frio
Penso, peno, repenso, propenso à catástrofe
Abraço o indizível, abraço indizível
Espero que entendam que não entedem
Nem eu a vocês, nem vocês a mim
Abolindo a cultura, eu a liberto para que vá embora
Quero destruir igrejas, templos, bibliotecas
Precisamos renascer com novas mentes
Temos necessidade de mais necessidade
O desejo do vazio absoluto
Reconstruir o sujeito como se cada um fosse uma obra de arte
Sermos arte!
Serdes arte!
Destruir o sujeito como se ele nunca houvesse existido
Liberte-se de seu pai e sua mãe Liberte-se da posição de coitado
Foi o acaso que definiu esta posição
Assim como definiu as palavras, eu e o mundo
Liberte a ética e a moral antiquadas, renova-as com o teu sangue
Seja fluido e abrace-se enquanto transa consigo mesmo
Dê a luz uma nova vida que será retirada da sua cabeça
Seja Zeus, Deus e o diabo!
Sermos arte!
Serdes arte!
Mate os eufemismos e liberem por um segundo os seus desejos
Enfie uma faca até que o cabo encontre as costelas de Deus
Sinta pulsar o sangue divino
Libere a realidade para fluir como o mais belo caos.
Wenceslau Teodoro Coral
quinta-feira, novembro 19, 2009
Dentes
Era uma noite como outra qualquer, em uma das muitas cidades pelas quais já havia passado, não havia nada de especial. Era início de noite, segurava uma xícara grande de café quente. Eu ensaiava umas idéias, nada relevante. As horas no relógio passavam como se não tivessem pressa de completar o dia... Minha matéria vagava por esse espaço sem tempo, sem substância...
A mulher ao lado dizia que passava mal, parecia estar falando já faziam alguns minutos, mas eu não dei importância. Então, com um alicate, saído sabe-se lá de onde, ela começou a retirar seus dentes como se fossem peças de montar. Sangue por toda a mesa, demonstrando não se importar com o pequeno show de horrores, um a um eles eram retirados. Dizia algo sobre alívio e fardos, coisas sem sentido, pelo menos para mim... Eu continuava a tomar o meu café, já quase frio, enquanto os dentes de minha colega de mesa formavam alguma espécie de círculo ritual inconsciente, no rosto da mulher não havia dor, nem gozo, nem qualquer emoção que conhecesse ou desconhecesse. No rosto haviam apenas pequenas rugas que circundavam a sua boca e que delineavam umas linhas de sangue e a saliva rosada que pendiam de seus lábios carnudos e bem definidos, parando somente ao encontrar a mesa fria daquele lugar, (apesar da idade que o resto daquele ser demonstrava, que somente agora observo o suficiente para arriscar um palpite sobre). Pelo canto de sua boca já começava a escorrer um pouco do sangue escuro das cavidades dentárias desocupadas.
Enquanto isso meu celular tocou. Eu atendi. Falei com a pessoa que me ligou. Pergunto se ela iria fazer algo naquela noite e se não queria comer algo antes de irmos a uma das boates de rock do centro da cidade. Nisso acho que a minha vizinha de mesa já deveria ter chegado ao siso, eu a beijo na testa e saio do local. Dizendo para que se cuide. Ela murmura algo que não consigo entender e apresso meus passos, pois o tempo parece querer me pregar uma de suas peças e passar mais rápido do que realmente demonstrara.
Fiquei com um pouco das cenas da lanchonete, com a imagem, com as palavras da "senhora dos dentes" na minha cabeça. Perguntava-me se eu tinha fardos e se eu teria alguma vez tido alívio em alguma coisa. Porque as pessoas precisam se atrasar?, eu me perguntava enquanto esperava a minha companhia que eu já supusera de antemão que não chegaria na hora marcada. Ando uns metros e compro uma caipirinha em uma das bancas que fica no local, não me arrisco a pedir outra coisa. – Muito gelo, por favor. – Sim, senhor! Aguardo ali descendo aquela caipirinha mal-feita enquanto eu espero. Esbarram em mim, quase derrubo a bebida por sobre mim, olho. – Desculpa, aí! – Tudo bem, não foi nada. Penso: bicha cega!
Olho o relógio, parece que as horas voltaram ao seu ritmo normal de não quererem terminar nada do que começaram. Cabelos lisos, provavelmente resultado de uma escova bem feita, pele branca, anda de forma elegante e altiva, o mundo a sua volta nada mais é do que lixo, escória, o jeito feminino de andar: que o mundo acabe, mas que eu não saia do salto, eu pensava. – Boa noite, Lis! – Oi, amigo! Ela tinha uma mania de destruir essa imagem de mulher fatal ao encontrar com conhecidos. Eu ria por dentro dessas coisas. – então, vai querer beber algo antes de entrar? Mostrava a bebida em minha mão. – não, acho que não. Não me sinto lá muito bem. Eu agora percebia melhor, uma blusa que acentuava as melhores qualidades femininas de Lis, um decote digno de artista, maquiagem sem exageros, um batom discreto, botas, uma saia rodada, nada curta. Lembrava de quando ficamos pela primeira vez, foi legal, na verdade eu ainda me lembro bem, costumo me lembrar de certas coisas que gostaria de trocar por lembranças mais úteis, porque me lembrava eu sofria: fardos, alívio?
- Então quer água? Ou vamos tomar nosso caminho?
- Á! não sei, porque a pressa?
- Nem sei, acho que é porque alguém costuma atrasar sempre?
Eu ri ao falar isso, ela também riu, pediu desculpas, começou a contar que teve problemas com o computador e que teve que terminar um ensaio da faculdade antes de sair. Ela discorria sobre os motivos do seu atraso e eu ali, minha mente já não prestando atenção no que ela dizia, apenas imaginando, ela ali, uma mulher linda, eu ao seu lado, um cara nada espetacular. Ela com o cigarro na mão, eu a beijei, disse para andarmos um pouco. Já sentados na mesa de um bar, ali naquela noite boêmia, eu conversava, ela ria, eu era bom nisso. – mais uma cerveja, por favor. O garçom acenava com a cabeça, eu entendia estes sinais, sabia a semiótica dos bares, da ralé, eu sabia e não sabia por que deveria saber, mas sim porque eu simplesmente sabia. Acordo ao lado de Lis, o seu apartamento na zona sul do rio dava para lugar nenhum. Mas era mais perto de tudo do que o meu na zona norte. Na verdade era uma casa. Eu levantei, liguei o computador. Água, biscoito. Logo ela se levanta. Beijos, abraço demorado. – Tchau! Eu disse. Tchau! Ela disse.
Alívio. Eu não sabia o que era isso, sabia o que era o sofrimento, mas não sabia o que era esse, esse sentimento de estranho descarregar que alguns descreviam com certo prazer. Não contei nada do café para Lis. Pus-me a andar pelas ruas de Copacabana. Padaria. Pão, café, jornal da banca em frente. Morte, dor, humanidade perdida. Odeio jornais. Pensava agora já com um ar normal: fardos. Que inferno! Porque essas palavras ainda perturbam, aquela mulher deveria ter ficado quieta, isso sim. Tentava pensar no nada. Minha cabeça parecia que carregava todo o peso do mundo. Eu já não agüentava mais. Então, passo por um casal de sem tetos. Eles faziam amor ali, naquela manhã ainda fria de domingo, bem próximos a Nossa Srª. de Copacabana. Essa hora, nenhum movimento, apenas eu, sendo ignorado por eles, pensando no nada. A imagem passava sem filtro pela minha íris se instalando bem no subconsciente. Eu passei. Eles continuaram.
Uma música martelava a minha cabeça. Eu andava e não me sentia mais, estava morto e não sabia? O que acontecia comigo naquele momento? Não ouvia mais meu coração e já não sabia mais onde estava. Eu havia morrido por segundos de uma tristeza que não sentia já fazia tempos, eu morrera para o mundo e o mundo morrera para mim. De repente me vejo despertar deste domínio onírico e agradecer a uma senhorita. Eu ainda estava vivo, não sabia como, mas ainda respirava e andava com alguma desenvoltura. É como se nunca houvesse saído de meu corpo e realmente não saíra. Eu andava e as pessoas se desviavam de mim. Eu ainda existia de algum modo dentro do sistema, dentro dessa rede. Eu inspirei e expirei profundamente.
A mulher ao lado dizia que passava mal, parecia estar falando já faziam alguns minutos, mas eu não dei importância. Então, com um alicate, saído sabe-se lá de onde, ela começou a retirar seus dentes como se fossem peças de montar. Sangue por toda a mesa, demonstrando não se importar com o pequeno show de horrores, um a um eles eram retirados. Dizia algo sobre alívio e fardos, coisas sem sentido, pelo menos para mim... Eu continuava a tomar o meu café, já quase frio, enquanto os dentes de minha colega de mesa formavam alguma espécie de círculo ritual inconsciente, no rosto da mulher não havia dor, nem gozo, nem qualquer emoção que conhecesse ou desconhecesse. No rosto haviam apenas pequenas rugas que circundavam a sua boca e que delineavam umas linhas de sangue e a saliva rosada que pendiam de seus lábios carnudos e bem definidos, parando somente ao encontrar a mesa fria daquele lugar, (apesar da idade que o resto daquele ser demonstrava, que somente agora observo o suficiente para arriscar um palpite sobre). Pelo canto de sua boca já começava a escorrer um pouco do sangue escuro das cavidades dentárias desocupadas.
Enquanto isso meu celular tocou. Eu atendi. Falei com a pessoa que me ligou. Pergunto se ela iria fazer algo naquela noite e se não queria comer algo antes de irmos a uma das boates de rock do centro da cidade. Nisso acho que a minha vizinha de mesa já deveria ter chegado ao siso, eu a beijo na testa e saio do local. Dizendo para que se cuide. Ela murmura algo que não consigo entender e apresso meus passos, pois o tempo parece querer me pregar uma de suas peças e passar mais rápido do que realmente demonstrara.
Fiquei com um pouco das cenas da lanchonete, com a imagem, com as palavras da "senhora dos dentes" na minha cabeça. Perguntava-me se eu tinha fardos e se eu teria alguma vez tido alívio em alguma coisa. Porque as pessoas precisam se atrasar?, eu me perguntava enquanto esperava a minha companhia que eu já supusera de antemão que não chegaria na hora marcada. Ando uns metros e compro uma caipirinha em uma das bancas que fica no local, não me arrisco a pedir outra coisa. – Muito gelo, por favor. – Sim, senhor! Aguardo ali descendo aquela caipirinha mal-feita enquanto eu espero. Esbarram em mim, quase derrubo a bebida por sobre mim, olho. – Desculpa, aí! – Tudo bem, não foi nada. Penso: bicha cega!
Olho o relógio, parece que as horas voltaram ao seu ritmo normal de não quererem terminar nada do que começaram. Cabelos lisos, provavelmente resultado de uma escova bem feita, pele branca, anda de forma elegante e altiva, o mundo a sua volta nada mais é do que lixo, escória, o jeito feminino de andar: que o mundo acabe, mas que eu não saia do salto, eu pensava. – Boa noite, Lis! – Oi, amigo! Ela tinha uma mania de destruir essa imagem de mulher fatal ao encontrar com conhecidos. Eu ria por dentro dessas coisas. – então, vai querer beber algo antes de entrar? Mostrava a bebida em minha mão. – não, acho que não. Não me sinto lá muito bem. Eu agora percebia melhor, uma blusa que acentuava as melhores qualidades femininas de Lis, um decote digno de artista, maquiagem sem exageros, um batom discreto, botas, uma saia rodada, nada curta. Lembrava de quando ficamos pela primeira vez, foi legal, na verdade eu ainda me lembro bem, costumo me lembrar de certas coisas que gostaria de trocar por lembranças mais úteis, porque me lembrava eu sofria: fardos, alívio?
- Então quer água? Ou vamos tomar nosso caminho?
- Á! não sei, porque a pressa?
- Nem sei, acho que é porque alguém costuma atrasar sempre?
Eu ri ao falar isso, ela também riu, pediu desculpas, começou a contar que teve problemas com o computador e que teve que terminar um ensaio da faculdade antes de sair. Ela discorria sobre os motivos do seu atraso e eu ali, minha mente já não prestando atenção no que ela dizia, apenas imaginando, ela ali, uma mulher linda, eu ao seu lado, um cara nada espetacular. Ela com o cigarro na mão, eu a beijei, disse para andarmos um pouco. Já sentados na mesa de um bar, ali naquela noite boêmia, eu conversava, ela ria, eu era bom nisso. – mais uma cerveja, por favor. O garçom acenava com a cabeça, eu entendia estes sinais, sabia a semiótica dos bares, da ralé, eu sabia e não sabia por que deveria saber, mas sim porque eu simplesmente sabia. Acordo ao lado de Lis, o seu apartamento na zona sul do rio dava para lugar nenhum. Mas era mais perto de tudo do que o meu na zona norte. Na verdade era uma casa. Eu levantei, liguei o computador. Água, biscoito. Logo ela se levanta. Beijos, abraço demorado. – Tchau! Eu disse. Tchau! Ela disse.
Alívio. Eu não sabia o que era isso, sabia o que era o sofrimento, mas não sabia o que era esse, esse sentimento de estranho descarregar que alguns descreviam com certo prazer. Não contei nada do café para Lis. Pus-me a andar pelas ruas de Copacabana. Padaria. Pão, café, jornal da banca em frente. Morte, dor, humanidade perdida. Odeio jornais. Pensava agora já com um ar normal: fardos. Que inferno! Porque essas palavras ainda perturbam, aquela mulher deveria ter ficado quieta, isso sim. Tentava pensar no nada. Minha cabeça parecia que carregava todo o peso do mundo. Eu já não agüentava mais. Então, passo por um casal de sem tetos. Eles faziam amor ali, naquela manhã ainda fria de domingo, bem próximos a Nossa Srª. de Copacabana. Essa hora, nenhum movimento, apenas eu, sendo ignorado por eles, pensando no nada. A imagem passava sem filtro pela minha íris se instalando bem no subconsciente. Eu passei. Eles continuaram.
Uma música martelava a minha cabeça. Eu andava e não me sentia mais, estava morto e não sabia? O que acontecia comigo naquele momento? Não ouvia mais meu coração e já não sabia mais onde estava. Eu havia morrido por segundos de uma tristeza que não sentia já fazia tempos, eu morrera para o mundo e o mundo morrera para mim. De repente me vejo despertar deste domínio onírico e agradecer a uma senhorita. Eu ainda estava vivo, não sabia como, mas ainda respirava e andava com alguma desenvoltura. É como se nunca houvesse saído de meu corpo e realmente não saíra. Eu andava e as pessoas se desviavam de mim. Eu ainda existia de algum modo dentro do sistema, dentro dessa rede. Eu inspirei e expirei profundamente.
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